O Cachorro Que Consolava
—
Sete anos aturando seus chiliques, Beca — disse Jaime olhando para um ponto específico
da parede da sala, como se houvesse um projetor exibindo ali a retrospectiva
dos últimos anos.
—
Soa muito elogioso, vindo de um babaca que chegou em casa uma da manhã, em
plena quinta-feira, fedendo a vodca, látex e perfume Hinode.
—
Esse tipo de insinuação só merece uma resposta. — Jaime pausou a retrospectiva
imaginária projetada na parede e encarou Beca diretamente nos olhos, antes de
dizer pausadamente — Jonas.
—
Você é um escroto, Jaime! Isso já tem mais de dois anos e era assunto
resolvido.
Os
ombros de Beca encolheram-se, como quem sente uma bigorna enferrujada saindo da
coxia e se lançando sobre ela, seus cílios umedeceram. Tão logo a primeira gota
de lágrima se formou, Chico, o lhasa apso do casal, escalou o corpo da tutora e
pôs-se a lamber seu rosto trêmulo. Jaime retomou o olhar para o ponto na parede.
Beca olhou para o lado oposto, em direção à porta de entrada; aquela parecia
ser a única saída.
—
Obrigada, filho. Hoje você dorme na cama com a mamãe. Só eu e você.
No
sofá, Jaime pensava sobre o que dissera minutos atrás. Ele sabia que “Jonas” era
um Ás de espadas escondido na manga, mas não conseguira evitar. Talvez fosse o
último trunfo que ainda lhe restava. Pegou no sono pensando que se não
estivesse ficando calvo, provavelmente nada disso teria acontecido.
Às
sete da manhã, Beca saiu do quarto pé ante pé para não acordar Chico e foi guiada
pelo cheiro até a bancada da cozinha americana.
—
Fiz café e sua omelete preferida, com queijo minas, tomate e orégano.
—
Isso é um pedido de desculpas?
—
Foi mal por ontem, Beca. Passei do ponto — disse Jaime, examinando
minuciosamente a falha no rejunte do piso branco de cerâmica.
Durante
o café da manhã, o único som ouvido foi o diálogo entre o tilintar do garfo contra
a porcelana e o barulho do cansado relógio de parede que marcava, cruel e lentamente,
um tempo em que qualquer palavra quebraria a fina camada de equilíbrio que
ainda restava. Beca tomou um grande e último gole de café, como forma de
engolir muitas palavras não ditas.
—
Tô indo trabalhar, Jaime. Bota a comida do Chico quando ele acordar.
Chico
havia chegado ao apartamento do casal há pouco mais de três anos e era uma
espécie de juiz de conciliação. Era de se acreditar que o cachorro tinha
poderes mágicos. Talvez por se tratar de um lhasa apso, raça de origem tibetana,
isso lhe conferisse alguma sabedoria enquanto acessório de fábrica. Parecia que
Chico percebia quem estava errado nas discussões e isso era uma estranha forma
de mediação do conflito no apartamento 402 do prédio verde, na rua Duvivier.
Quando
Jaime soube de Jonas, o cachorro ainda era filhote. Foram tantos dias, tantas
noites e tantas lágrimas, ocasionalmente interrompidas por ecolálicos gritos de
“puta”, que não fosse pelo árduo trabalho de Chico, a crônica de Rubem Braga se
faria real e teríamos uma Copacabana absolutamente submersa.
Impressionava
o orgulho que o casal ostentava pelo filho de quatro patas. Em todo passeio com
Chico, paravam em cada cachorro da rua e puxavam assunto com os outros tutores,
com o único intuito de demostrar a superioridade metafísica de Chico sobre os
outros membros da espécie. Afinal, era o melhor entre os melhores amigos do
Homem. Diante dos peitos estufados de seus responsáveis, parados na hora da
caminhada, só restava ao pobre Chico bufar e deitar-se sobre o calor das pedras
portuguesas.
No último sábado, haviam ido à casa dos pais
de Jaime. Lá, Beca adorava contar os feitos de Chico, menos por orgulho e mais
para provocar o sogro, deixando claro para o velho o quanto o seu filho machão chorava
igual a uma criança — Beca tinha o dom de transformar palavras em projéteis. Quando
eles voltaram para casa, ela comentou rindo:
— O “sargento suburbano” ficou louco quando
eu falei dos seus choros — Sabia que Jaime odiava o apelido que ela dera ao seu
pai, que quando se aposentou da polícia militar abriu um bar no Engenho de Dentro.
—
Você quer falar do meu pai, Rebeca? Pelo menos ele não mora com uma menina quarenta
anos mais nova e nem fuma tanta maconha que ainda acredita na chegada da
revolução soviética ao Brasil. Comunista do Leblon. — Jaime sempre aumentava um
pouco a diferença de idade entre o sogro e a namorada, só para alfinetar a
companheira.
—
Porra, Jaime! Rebeca? — A maior ofensa na vida de Beca é que usem o seu nome de
batismo. — Melhor do que ter um pai milico e fascista.
Assim
que terminou a frase, Beca percebeu, de soslaio, uma ligeira movimentação do cachorro
na direção de Jaime, como se o companheiro carregasse um ímã a puxar para si o pêndulo
da justiça. Ela sabia o que aquilo significava. Abriu a porta da varanda e
acendeu um cigarro. Chico procurou uma posição em que pudesse observar os dois
e se deitou no tapete branco da sala com o focinho preto entre as patas.
Naquela
mesma noite, em cantos opostos do sofá, Beca e Jaime assistiam ao noticiário, em
que uma veterinária dizia “Cães não entendem sentimentos complexos, apenas
gostam do sabor da lágrima”. Beca olhou para Jaime como quem via desabar a
última estaca da ponte no caminho de casa. Jaime meneou a cabeça como quem
cumprimenta uma velha conhecida de cujo nome já não se recorda. Chico deitou-se
entre os dois e começou a lamber a própria pata.
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